“A sustentabilidade já não é uma escolha, é a sobrevivência do negócio”

Ana Isabel Trigo Morais, CEO SPV
Ana Isabel Trigo Morais, CEO Sociedade Ponto Verde

Conversamos com Ana Trigo Morais num momento em que a economia circular deixou de ser uma ambição e passou a ser uma condição de competitividade para o país e para as empresas. À frente da Sociedade Ponto Verde (SPV), impõe-se como uma das vozes mais claras e consistentes do sector. A gestora descreve um país que evoluiu muito na última década — sete em cada 10 portugueses já reciclam — mas que enfrenta agora o ciclo mais exigente de sempre: novos modelos de recolha, metas europeias mais duras, pressão regulatória, inovação material e uma urgência absoluta em transformar dados em decisões. Entre desafios operacionais, aceleração tecnológica e mudanças profundas no comportamento dos consumidores, permanece uma convicção: a circularidade só avançará se todo o sistema — empresas, Estado, municípios e cidadãos — deixar de fazer “mais do mesmo” e abraçar, sem hesitações, um novo desenho para o futuro. Mais uma conversa integrada na rubrica “20 Anos, 20 Entrevistas”.

 

Ao longo da última década, a gestão de resíduos e a reciclagem passaram de tema “periférico” a estrutural, tanto na agenda das empresas como na do país. Que balanço faz desta evolução em Portugal?

Diria que o balanço tem de começar um bocadinho antes. A Sociedade Ponto Verde está a chegar aos 30 anos e isso quer dizer que, há três décadas, não existia em Portugal um sistema organizado de recolha e valorização de embalagens. Hoje existe.

Temos sete em cada 10 portugueses a separar embalagens e a reciclá-las, temos ecopontos, centros de triagem, unidades de tratamento e uma infraestrutura montada em conjunto com muitos parceiros. Portanto, o balanço é positivo e é um motivo de orgulho, não só para a Sociedade Ponto Verde, mas para o país.

Os últimos 10 anos foram, no fundo, um período de maturidade do sistema. Agora, isso não significa que o trabalho esteja feito. Pelo contrário: o futuro vai ser tão ou mais desafiante do que estes dez anos que já passaram.

 

Quais foram, para si, os marcos mais importantes deste percurso recente, do lado das políticas e do lado dos comportamentos?

O nosso sector é muito moldado pelas políticas públicas, europeias e nacionais. Se tivesse de escolher um marco, diria a entrada da economia circular no nosso léxico e na prática das empresas, por volta de 2014/2015. A partir daí deixámos de falar apenas de “lixo” e começámos a falar de recursos: o valor que está nos resíduos, nas embalagens, nas matérias-primas secundárias.

Isso mudou a forma como a indústria olha para a embalagem, para o fim de vida, para o custo e para a oportunidade. E, depois, houve uma outra coisa que fomos fazendo, mais silenciosa, mas muito importante: construir a infraestrutura de recolha e triagem que hoje temos. O país está muito mais bem servido do que há 10 ou 15 anos.

Agora, o modelo que nos trouxe até aqui não é necessariamente o que nos vai levar a cumprir as novas metas. E é aqui que começa a parte difícil: reconhecer o percurso, mas admitir que temos de fazer diferente.

 

Falou nas metas. À luz do novo quadro europeu — Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR, da sua sigla em inglês), ecodesign mais exigente, novos sistemas de recolha — as metas são exequíveis na realidade portuguesa?

Penso que sim, são exequíveis. Mas não são exequíveis se deixarmos tudo na mesma. O maior nó crítico está nos serviços de recolha. Temos de melhorar a conveniência para o cidadão: colocar ecopontos nos sítios certos, reforçar ecocentros, apostar mais em porta-a-porta onde faz sentido, experimentar soluções mais próximas, mais interativas, mais transparentes para o consumidor. E isso tem de acontecer em todo o território, continente e ilhas, adaptando os modelos à realidade local.

Depois há um segundo desafio: o investimento em tecnologia e em novos processos para transformar resíduos de embalagens em matérias-primas secundárias de qualidade, para os retirar efetivamente dos aterros. Quando falo em “fábricas de lixo”, é isto: unidades industriais que produzem matéria-prima valorizável, ambiental e economicamente.

E há um terceiro desafio que é, para mim, o grande desafio do nosso tempo: os dados. A gestão de dados. Ainda não temos dados suficientemente fiáveis, tratados e interoperáveis que nos permitam tomar sempre as melhores decisões. A SPV tem hoje um papel de repositório de muitos desses dados, mas isto tem de ser feito em articulação com o regulador, com a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), com as autoridades ambientais, com os sistemas municipais e com os nossos clientes. Sem dados, não há transparência, não há accountability e não há verdadeira gestão.

 

“Quando olhamos para o desempenho do sistema em termos de quantidades recolhidas, ainda estamos aquém do que, na SPV, acreditamos que o país é capaz de fazer. E isso tem muito que ver com a operação: quem recolhe, como recolhe, com que qualidade de serviço”

 

Como é que a Sociedade Ponto Verde se está a preparar para responder a este novo ciclo regulatório e tecnológico?

Acompanhamos muito de perto a discussão europeia: o PPWR, a revisão da Diretiva-Quadro dos Resíduos, o passaporte digital da embalagem, as diretivas de reporte. Tudo isso faz parte do nosso dia a dia.

Temos uma preocupação grande em antecipar cenários. Há cerca de quatro anos, identificámos a inovação como uma área crítica e decidimos posicionar a Sociedade Ponto Verde como um acelerador. Isso começa dentro de casa — estamos a transformar processos internos — mas, sobretudo, tem expressão no tipo de serviços que damos aos nossos clientes. Criámos o Ponto Verde Lab, há três anos e meio, como repositório de conhecimento e apoio em ecodesign. Hoje, fala-se muito de ecodesign porque as regras vão apertar a partir de 2026, mas começámos esse trabalho antes, porque percebemos que a cadeia de valor não estava preparada, nem tinha o conhecimento necessário para responder.

Trabalhamos com as empresas no desenho das embalagens, com os sistemas municipais e outros parceiros na operação, testamos tecnologia no terreno com pilotos e, quando funciona, tentamos escalar. Esse é o nosso papel: acelerar a inovação ao longo da cadeia de valor da embalagem.

 

Do ponto de vista do consumidor, há uma pergunta muito prática: afinal, o que é hoje uma embalagem verdadeiramente sustentável?

Repare: a ecomodulação, que muitas vezes é vista com alguma preocupação, deve ser entendida como algo positivo. O princípio é simples — premiar as embalagens que são mais sustentáveis e compatíveis com os processos de valorização e reciclagem.

Se tivesse de resumir, diria que uma embalagem sustentável é, em primeiro lugar, uma embalagem desenhada para ser reciclada. Isto quer dizer que tem em conta a tecnologia disponível, os sistemas de triagem e de tratamento que existem. Não é uma embalagem “bonita” que depois fica presa num tapete de triagem.

Em segundo lugar, é uma embalagem que incorpora matérias-primas secundárias, na maior proporção possível, reduzindo a utilização de matéria-prima virgem.

E, em terceiro lugar, é uma embalagem que minimiza a sua pegada ambiental ao longo do ciclo de vida. E aqui cabem muitas decisões de detalhe: o tipo de cola no rótulo, a espessura dos materiais, os componentes, a forma como medimos e gerimos a pegada carbónica, entre outras.

No fundo, toda esta pressão regulatória e social está a ter um efeito interessante: está a obrigar as empresas a conhecerem muito melhor as suas embalagens. De que são feitas, quanto pesam, se são compatíveis com o sistema, se cumprem critérios, se são competitivas em custo e desempenho. E isso, eu diria, é um ganho estrutural.

 

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Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, considera que o facto de viver tempos “de muita informação”, permite ao consumidor vai passar “mais dados sobre a embalagem — de que materiais é feita, que pegada tem, que circuito faz”. O que com, naturalmente, faz com que seja mais exigente

 

E a inovação material — biopolímeros, reutilização, soluções inteligentes e rastreáveis — é um diferencial competitivo ou um requisito mínimo para quem quer estar no jogo?

É ambos. É um acelerador competitivo, mas também é um must be. As empresas que começarem já a melhorar a eficiência ambiental da embalagem e do seu processo produtivo vão estar muito mais bem preparadas para adotar critérios que serão cada vez mais exigentes. Temos mais legislação a caminho, temos o Circular Economy Act na agenda, e quem estiver à frente vai ganhar uma vantagem que não é só reputacional, é também económica.

Há outra dimensão: vivemos num tempo de muita informação. O consumidor vai passar a ter mais dados sobre a embalagem — de que materiais é feita, que pegada tem, que circuito faz. Isso torna-o mais exigente. A inovação material, combinada com a transparência, vai ser um fator de diferenciação entre marcas.

 

Do lado do cidadão, o que mudou na relação dos portugueses com a reciclagem nos últimos anos?

Costumo dizer que, na empresa, vivemos de resultados, não de expectativas. Mas começo pelas expectativas: acreditamos que o trabalho da SPV, para públicos muito diferentes, está a ter impacto nos comportamentos. E, felizmente, os dados confirmam isso em parte.

O estudo “Os Portugueses e a Reciclagem”, coordenado pela professora Luísa Schmidt, revelou-nos um aumento grande do awareness e da preocupação com o tema. As pessoas interiorizaram que reciclar é importante. Geracionalmente, caminhamos para um consumidor eco-consciente, que percebe melhor o valor da embalagem e o impacto de a colocar no ecoponto ou, no futuro, de a devolver num ponto de venda.

Agora, quando olhamos para o desempenho do sistema em termos de quantidades recolhidas, ainda estamos aquém do que, na SPV, acreditamos que o país é capaz de fazer. E isso tem muito que ver com a operação: quem recolhe, como recolhe, com que qualidade de serviço.

 

Vejo a SPV, em 2030, claramente afirmada como parceiro de inovação do sector. Alguém que ajuda a encontrar respostas para problemas complexos, que liga a legislação à operação, que transforma dados em conhecimento

 

Ou seja, não basta dizer ao consumidor “recicle”, é preciso garantir condições…

Exatamente. Não podemos pôr tudo em cima da consciência individual. Os nossos estudos mostram que praticamente todos os portugueses sabem que o verde é para vidro, o amarelo para plástico e metal, o azul para papel e cartão. A regra básica está lá. Mas se eu passo meses a dizer ao cidadão que reciclar é importante e, depois, ele chega à rua e encontra um ecoponto cheio, sacos à volta, mau cheiro, estou a desincentivar a prática. É um fator altamente desmotivador.

Depois há outro aspeto: o país mudou. Temos mais estrangeiros a viver aqui, mais turistas, mais diversidade cultural. As cores dos ecopontos não são iguais em todo o lado, as regras variam de país para país. Por isso tivemos de adaptar: sinalética em três línguas, guias técnicos traduzidos, programas específicos para o canal da restauração, materiais de apoio à separação nesse canal.

E há um desafio adicional: acompanhar a transformação do país do ponto de vista demográfico e turístico, desenhando também serviço para quem nos visita. O turismo é um motor fantástico de crescimento, mas também traz responsabilidades.

 

E junto das gerações mais novas, que papel é que a educação continua a ter?

Um papel central. A nossa Academia Ponto Verde é um ótimo exemplo disso. Nos últimos quatro anos, chegámos a mais de 700 mil crianças e a mais de mil escolas em todo o país. É um trabalho muito consistente, que nos orgulha.

Ao mesmo tempo, temos de falar a linguagem das novas gerações. Toda a gente tem hoje um dispositivo na mão e isso é um intermediário poderosíssimo. A “gamificação” que temos vindo a desenvolver na relação com o consumidor é também inovação: não é só tecnologia pela tecnologia, é a forma como desenhamos a interface, a interação, a recompensa.

 

Falou várias vezes em dados. A indústria utiliza cada vez mais a expressão data-driven circularity. O que é que isto significa, na prática, para o sistema?

Na prática, significa que temos de conhecer melhor a embalagem, do princípio ao fim. Quando falamos de passaporte digital, de ecomodulação, do custo que a embalagem paga ao sistema em função das suas propriedades, estamos a falar de fichas técnicas, de informação normalizada, de dados que, depois, são cruzados com outros dados. Isso torna o sistema mais transparente e dá-nos uma base muito mais sólida para tomar decisões. Não é só para o consumidor, é para toda a cadeia de valor: produtores, retalho, operadores e municípios.

Mas os dados só têm valor se forem utilizados. É preciso transformá-los em ferramentas de gestão, em instrumentos de planeamento, em comunicação útil. Acredito muito que a grande aceleração desta transformação vai ser feita com conhecimento: dados, tecnologia, inteligência artificial e também ciência, investigação que nos ajude a escolher os melhores processos e os melhores materiais.

 

Como é que imagina o papel da Sociedade Ponto Verde em 2030?

Vejo a SPV, em 2030, claramente afirmada como parceiro de inovação do sector. Alguém que ajuda a encontrar respostas para problemas complexos, que liga a legislação à operação, que transforma dados em conhecimento.

Vejo também uma SPV ainda mais presente onde os portugueses estiverem: nas praias, nos festivais, nas escolas, nas casas, nos canais digitais. A sensibilização e a educação não vão desaparecer, pelo contrário.

E, depois, vejo um ecossistema do grande consumo em que os temas da reciclagem, da rastreabilidade e da sustentabilidade são ainda mais centrais do que hoje, mas, espero, com muito mais eficiência e resultados. A eficiência, para mim, é o grande desafio do futuro.

 

O que distingue as empresas que estão verdadeiramente na linha da frente da sustentabilidade daquelas que ainda olham para isto como um custo?

Em todos os sectores, há early adopters, aqueles que vão à frente, arriscam, testam e investem. No tema da sustentabilidade é igual.

Quando se decidiu, por exemplo, que as tampas das garrafas de plástico tinham de ficar presas à embalagem, para não se perder material no processo de triagem, isso implicou mexer em linhas de produção e fazer investimentos pesados. As empresas que encaram isto apenas como um custo vão sempre resistir. As que o integram na estratégia — pela responsabilidade social, pelo posicionamento, pela liderança de mercado — tornam-se exemplo para as outras. As que não o fizerem, mais cedo ou mais tarde, vão ter o negócio mais ameaçado.

Não é preciso estar sempre na linha da frente a pilotar tudo, mas hoje não é possível ficar fora do jogo. E em Portugal, que é um país de pequenas e médias empresas, tenho encontrado muitas empresas muito comprometidas com esta transformação, o que me deixa otimista.

 

Se pudesse deixar uma mensagem final às marcas portuguesas sobre o lugar da sustentabilidade na competitividade futura, qual seria?

A mensagem é muito simples: a sustentabilidade já não é uma escolha, é a sobrevivência do negócio. E não falo só da embalagem. Falo das emissões, da mobilidade, do uso da água e da dependência de matérias-primas em cadeias de abastecimento longas e frágeis. Vimos o que aconteceu com a “guerra dos contentores”, com a guerra na Ucrânia, com eventos climáticos extremos. Tudo isso trouxe dificuldades de acesso a matérias-primas, aumento de custos, disrupções logísticas.

As empresas que tiverem a sustentabilidade integrada no centro da estratégia estarão muito mais bem preparadas para lidar com estes choques e com a pressão de consumidores e investidores. As alterações climáticas deixaram de ser um tema de alguns. Em Portugal já sentimos claramente os efeitos e nenhuma empresa que ignore isto ficará a salvo das consequências.

Ao mesmo tempo, gosto de sublinhar isto: sustentabilidade e competitividade não são inimigas. Quando é bem trabalhada, a sustentabilidade é um extraordinário fator de diferenciação, de eficiência e de criação de valor.

 

Este artigo foi publicado na edição N.º 96 da Grande Consumo

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Por Carina Rodrigues

Responsável pela redacção da revista e site Grande Consumo.

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