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A Organização Mundial do Comércio (OMC) alerta que o comércio mundial de mercadorias poderá contrair até 1,5% caso os Estados Unidos avancem com a reativação de tarifas comerciais mais agressivas.
A estimativa consta das projeções mais recentes da organização, divulgadas num contexto de crescente incerteza geopolítica e comercial.
Segundo a OMC, mesmo sem considerar a aplicação plena de tarifas “recíprocas”, o comércio global deverá já ter registado em 2025 uma queda de 0,2%, contrastando com a previsão de crescimento de 2,7% anteriormente avançada. A eventual generalização de tarifas adicionais sobre exportações para os Estados Unidos agravaria significativamente este cenário.
Incerteza comercial trava crescimento económico global
Em conferência de imprensa, a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, sublinhou que a incerteza associada à escalada tarifária funciona como um travão direto ao crescimento económico global, com impactos mais severos nas economias mais vulneráveis.
No cenário traçado pela organização, o crescimento do PIB global em 2025 poderá situar-se nos 2,2%, menos 0,6 pontos percentuais face às estimativas anteriores. Num horizonte mais prolongado, a OMC admite que o impacto acumulado da fragmentação comercial possa conduzir a uma perda de até 7% do PIB global.
América do Norte é a região mais penalizada
A análise da OMC indica que a América do Norte será a região mais afetada por uma escalada tarifária. As exportações norte-americanas deverão cair 12,6%, enquanto as importações recuariam 9,6%, mesmo antes de considerados novos aumentos de tarifas.
A organização alerta ainda que os efeitos não se limitam aos parceiros comerciais dos Estados Unidos. As próprias exportações norte-americanas enfrentam retaliações, o que amplifica o impacto económico interno e reduz a competitividade global da região.
Apesar do contexto adverso, a OMC projeta que a Europa consiga ainda um crescimento do comércio de 5% em 2025, embora este valor represente uma revisão em baixa face às previsões iniciais. A Ásia deverá registar um crescimento mais moderado, em torno de 1,6%, continuando, ainda assim, a contribuir positivamente para o comércio mundial.
A organização destaca que a guerra comercial em curso está a provocar um fenómeno inédito de desacoplamento comercial entre os Estados Unidos e a China. O comércio bilateral entre as duas economias poderá cair 81%, podendo atingir 91% caso determinados bens, como smartphones, não sejam excluídos das tarifas.
Redirecionamento de fluxos comerciais
Perante o bloqueio do mercado norte-americano, a China deverá redirecionar parte significativa das suas exportações para outros mercados, com um crescimento estimado de 4%, passando a representar cerca de 9% do comércio global fora da América do Norte.
Embora as tarifas incidam diretamente sobre bens, a OMC alerta que os efeitos se estenderão ao comércio de serviços, cujo crescimento global deverá desacelerar para 4% em 2025. A redução do volume de mercadorias transacionadas implicará menor procura por serviços associados, como transporte, logística portuária e operações aeroportuárias.
Para a OMC, a reativação de políticas tarifárias agressivas representa um risco estrutural para o sistema de comércio multilateral, promovendo fragmentação, menor previsibilidade e custos acrescidos ao longo das cadeias de valor globais.
“Quando as tarifas atingem níveis muito elevados, o impacto deixa de ser bilateral e passa a afetar todo o comércio mundial”, alerta a organização, sublinhando que a estabilidade comercial continua a ser um fator crítico para o crescimento económico sustentável.



