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As empresas portuguesas mantêm uma forte vocação internacional, mas continuam a enfrentar um conjunto de barreiras que limitam o seu crescimento nos mercados externos. A conclusão resulta de um inquérito realizado pela AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal – e pela Direção-Geral das Atividades Económicas (DGAE), no âmbito do Programa Internacionalizar.
O estudo, conduzido em maio de 2024, traça um retrato atualizado dos obstáculos à exportação e ao investimento direto das empresas nacionais no estrangeiro (IDPE), tanto no espaço da União Europeia como em mercados extracomunitários.
O tecido empresarial analisado é dominado por pequenas e médias empresas (PME): 69% faturam menos de 10 milhões de euros e apenas 8% superam os 50 milhões. Ainda assim, 93% das empresas inquiridas exportam, embora com intensidades muito distintas. Quase quatro em cada dez dependem fortemente das exportações (75 a 100% do volume de negócios), enquanto 17% exportam apenas de forma residual.
Geograficamente, 72% das empresas apostam numa estratégia diversificada, exportando para mercados dentro e fora da União Europeia. Espanha, França e Alemanha lideram como destinos intracomunitários, enquanto no espaço extra-UE o Reino Unido, os Estados Unidos e Angola surgem como principais mercados.
Barreiras intra e extracomunitárias: da discriminação local às alfândegas
No mercado interno europeu, a maioria das empresas não reporta grandes obstáculos, mas França e Espanha destacam-se como os mercados mais problemáticos, sobretudo devido a práticas discriminatórias e exigências locais. O acesso a informação credível sobre agentes económicos e regras de mercado surge também como uma dificuldade transversal.
Fora da União Europeia, os entraves são mais pesados: 60% das empresas reportaram barreiras à exportação, concentradas sobretudo no Reino Unido e nos EUA. As formalidades aduaneiras aparecem como o maior desafio, seguidas das barreiras pautais, da logística e do acesso a informação fiável. O Brasil é o mercado que mais frequentemente inviabiliza negócios, com 36% das empresas a afirmar não conseguir exportar devido às barreiras comerciais existentes.
Obstáculos internos: IRC e falta de técnicos especializados
Não é apenas lá fora que os empresários encontram dificuldades. Uma em cada cinco empresas refere ter enfrentado barreiras à exportação dentro do próprio país. O seguro de crédito e o IRC, nomeadamente a ausência ou dificuldade de acesso a benefícios fiscais, surgem como os entraves mais críticos.
Também o défice de técnicos especializados em internacionalização e as dificuldades no acesso a apoios públicos foram apontados como barreiras relevantes por mais de metade das empresas inquiridas.
Investimento direto no estrangeiro: prudência na UE, aposta em mercados lusófonos
Apesar da elevada taxa de exportação, apenas 28% das empresas têm investimentos diretos no estrangeiro. Entre as que o fazem, nota-se uma clara divisão: algumas concentram-se em apenas um ou dois mercados, enquanto outras apostam numa estratégia de maior diversificação.
Na União Europeia, Espanha, França e Alemanha são os destinos preferenciais. Já fora da UE, os EUA lideram, seguidos de Angola, Reino Unido, Moçambique e Brasil. Nos países lusófonos, a proximidade cultural e linguística continua a ser um fator decisivo.
Ainda assim, persistem barreiras significativas. No espaço europeu, os principais problemas residem na abertura de filiais e procedimentos administrativos complexos, sobretudo em França e Espanha. Fora da UE, Angola e Brasil destacam-se como os mercados mais desafiantes, devido a burocracias, exigências de vistos e falta de informação credível.
Políticas públicas em falta
As conclusões do inquérito deixam claro que a internacionalização continua a ser um processo desigual, marcado por entraves internos e externos. O relatório recomenda que os resultados sejam utilizados como base empírica para políticas públicas mais eficazes, reforçando o apoio às empresas que enfrentam barreiras fiscais, aduaneiras ou burocráticas.
Portugal mantém um tecido empresarial fortemente dependente de PME, com provas dadas no comércio externo, mas que exige melhores condições estruturais para competir de forma equilibrada nos mercados internacionais.
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