Mãos de uma pessoa a enquadrar o pôr do sol no horizonte, com luz dourada e paisagem desfocada ao fundo Foto Shutterstock
Consumo

Grandes mudanças no consumo global até 2030

A Mintel divulgou o relatório “2026 Global Consumer Predictions”, que traça um retrato aprofundado das transformações que vão marcar o comportamento dos consumidores nos próximos anos.

O estudo aponta três grandes forças estruturais: a reação ao domínio dos algoritmos, a redefinição das etapas de vida e o défice de ligação emocional numa sociedade cada vez mais automatizada.

Segundo a Mintel, o ano de 2026 será marcado por um ambiente de elevada incerteza económica, tensão geopolítica e aceleração tecnológica, com a inteligência artificial a redesenhar os limites da criatividade, da produtividade e da tomada de decisão.

Neste cenário, as marcas enfrentam um duplo desafio: responder às exigências de eficiência e, simultaneamente, preservar a dimensão humana da relação com os consumidores.

Consumidores rejeitam a influência excessiva dos algoritmos

A primeira grande tendência identificada é o movimento Anti-Algorithm, que traduz uma crescente resistência ao controlo exercido por sistemas automatizados sobre as escolhas, as preferências e os estilos de vida.

A Mintel sublinha que os algoritmos, inicialmente concebidos para facilitar a vida dos consumidores, passaram a moldar identidades, gostos e rotinas. Esta evolução está a gerar desconforto, levando muitos consumidores a procurar maior autonomia digital.

Até 2030, os consumidores deverão valorizar cada vez mais a transparência nos sistemas de recomendação, a capacidade de personalizar ou editar algoritmos, maior proteção dos dados pessoais e experiências menos padronizadas.

O relatório alerta que modelos baseados apenas na otimização da eficiência podem sufocar a criatividade e a diferenciação, colocando em risco a lealdade à marca.

A Mintel introduz o conceito de Human Algorithm, defendendo que os consumidores procuram um novo equilíbrio entre a tecnologia e a intuição. Apesar da valorização da conveniência digital, as decisões continuam a ser fortemente influenciadas por emoções, experiências pessoais e perceção de confiança. Num contexto marcado por deepfakes, desinformação e conteúdos gerados por IA, a credibilidade torna-se um ativo central.

Segundo o estudo, o futuro da inovação passará por integrar a tecnologia com a sensibilidade humana, em vez de substituir o julgamento individual.

A “nova juventude” e o fim das etapas tradicionais da vida

A segunda grande tendência, designada The New Young, reflete a dissolução das fronteiras entre fases da vida. Com o aumento da longevidade e a instabilidade económica, os marcos tradicionais — formação, carreira estável, reforma — tornam-se cada vez mais fluidos. O conceito de juventude deixa de estar associado à idade cronológica e passa a relacionar-se com a atitude, a vitalidade e o propósito.

A Mintel identifica o surgimento de um “meio da vida estendido”, caracterizado por reinvenções profissionais tardias, novos projetos pessoais após os 40 e 50 anos, a valorização da aprendizagem contínua e a prrioridade a experiências em detrimento da acumulação.

Conceitos como micro-reforma e pausas prolongadas na carreira tornam-se mais comuns, refletindo o desejo de evitar o esgotamento profissional.

Este novo ciclo de vida obriga as marcas a repensar o design de produtos intergeracionais, a comunicação sem estereótipos etários, serviços financeiros mais flexíveis e soluções de bem-estar adaptáveis.

O estudo alerta que as marcas excessivamente focadas nos jovens adultos tradicionais correm o risco de perder relevância junto de públicos mais maduros, mas ativos e exigentes.

O défice de afeto numa sociedade automatizada

A terceira grande tendência, denominada The Affection Deficit, aborda a erosão progressiva das relações humanas num mundo dominado por plataformas digitais, automatização e interações mediadas por tecnologia.

A Mintel destaca que muitos consumidores estão a refugiar-se em “bolhas” individuais, privilegiando segurança e eficiência em detrimento da convivência espontânea.

O estudo identifica vários fatores que alimentam este fenómeno: o crescimento do trabalho remoto, a redução do contacto presencial, a dependência de chatbots e assistentes virtuais e a substituição do atendimento humano por sistemas automáticos.

Como resultado, a ligação emocional torna-se um recurso escasso, com impacto direto na saúde mental, no consumo e na fidelidade às marcas.

A Mintel introduz, assim, o conceito de Affection Economics, defendendo que atenção e carinho passaram a ser avaliados numa lógica custo-benefício. Num contexto dominado por likes, visualizações e viralidade, o afeto tende a ser substituído pela validação momentânea. Como tal, as marcas são chamadas a desempenhar um papel ativo na reconstrução de relações mais autênticas.

Paralelamente, cresce a relevância das comunidades locais, das experiências presenciais, dos rituais sociais e de iniciativas com impacto emocional.

O relatório aponta ainda para o crescimento do chamado “afeto escolhido”, que inclui relações de amizade profundas, comunidades de interesse, a ligação aos animais de estimação e o autocuidado e a espiritualidade. Este movimento abre oportunidades para marcas nos sectores de bem-estar, alimentação, turismo, retalho físico e serviços personalizados.

O relatório deixa claro que o crescimento futuro dependerá menos da escala e mais da relevância emocional e cultural. Entre as principais recomendações estratégicas destacam-se o reforço da transparência digital, a valorização da personalização consciente, a criação de experiências híbridas (físico + digital), o investimento em comunidades e o desenvolvimento de propostas flexíveis para diferentes fases da vida.

As marcas que conseguirem equilibrar tecnologia, empatia e propósito estarão mais bem posicionadas para liderar até 2030.

Para a Mintel, o futuro do consumo será definido por três grandes eixos: empoderamento face à tecnologia, flexibilidade ao longo da vida e reconstrução das ligações humanas. Este enquadramento transforma o marketing, a inovação e o retalho em plataformas de significado e não apenas de transação.

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