“Só queremos sair de Lisboa quando o projeto e toda a cadeia de abastecimento estiverem consolidados”

Rui de Carvalho, diretor MyAuchan

Um projeto feito sem pressas, porque a capilaridade tem os seus preceitos. Dois anos após o seu lançamento, o MyAuchan atingiu perto de três dezenas de lojas. Mas, mais importante ainda, conseguiu ganhar o ambicionado reconhecimento por parte dos clientes, fruto de uma marcada aposta na proximidade, onde o projeto comercial se torna parte integrante da comunidade em que está inserido, criando laços e relações de vizinhança com aqueles que visitam as suas lojas. Se o comércio se baseia em “localização, localização, localização”, o projeto MyAuchan assenta em “consolidação, consolidação, consolidação”. Consolidação do negócio, da zona geográfica e do modelo de gestão. Só assim, conta-nos Rui de Carvalho, diretor do MyAuchan, se poderá pensar em expandir para lá das fronteiras físicas da área metropolitana de Lisboa e abrir a outro tipo de modelos de gestão, como o franchising.

 

Grande Consumo – 2017 assinala a entrada da Auchan no canal de proximidade, com um conceito eminentemente urbano. Sensivelmente dois anos depois, que balanço pode fazer do arranque da operação? O MyAuchan está hoje onde era suposto estar, quer em termos de faturação, quer também das lojas em funcionamento?

Rui Carvalho – Foram dois anos de trabalho extraordinário, de uma equipa multifacetada, que envolveu operacionais, comerciais, equipas técnicas, jurídicas e de desenvolvimento, num elevado espírito de cooperação e colaboração que muito nos tem orgulhado.

Quando, há pouco mais de dois anos, partimos para a construção do projeto MyAuchan, fizemo-lo conscientes que tínhamos que entregar aos consumidores portugueses um projeto atrativo, moderno, diferente e que se integrasse na comunidade. Atrativo pelo layout das nossas lojas, pelos materiais utilizados, pela alargada cobertura de necessidades e pela qualidade das equipas, alavanca essencial na criação de uma relação de confiança com os nossos clientes. Moderno na relação de proximidade que queremos criar, na força da presença do digital, juntando ao espaço tradicional um conjunto alargado de serviços, tais como o pick-up, as entregas ao domicílio, o online, as diferentes formas de pagamento e o acesso a toda a oferta disponível no catálogo Jumbo. Diferente porque tratando-se de lojas eminentemente urbanas, e porque visitadas por uma comunidade de pessoas com diferentes hábitos e costumes, adaptamos a nossa oferta de uma forma contínua, estabelecendo pontos de contacto com os nossos clientes, ajudando-nos a melhorar, todos os dias, a nossa operação.

Queremos, fundamentalmente, que as nossas lojas se afirmem como um espaço de regeneração urbana, de aproximação humana e de contacto com novas tendências de consumo. Mas queremos ir ainda mais longe. No âmbito da nossa responsabilidade social, disponibilizámos, pela primeira vez no país, um espaço de co-work, totalmente gratuito e dirigido a uma comunidade de jovens independentes e empreendedores, para que possam encontrar nesse local o conforto para desenvolverem o seu talento. Um espaço de partilha, de conhecimento, de estudo ou, ainda, de criação de startups. Este espaço tem-se revelado um enorme sucesso e é hoje um ponto de referência na Avenida da República, em Lisboa, onde está situado.

Perante tudo isto, o balanço destes dois anos resulta como muito positivo, pelo reconhecimento obtido junto dos consumidores, em geral, e dos nossos clientes, em particular, pelos mais variados testemunhos, sejam avaliações externas ou internas a que temos sido sujeitos, seja pelo aumento significativo do tráfego de clientes que temos experimentado, seja ainda pela nomeação para prémios que temos recebido, que nos traz uma responsabilidade acrescida.

 

GC – Em todo o seu discurso está presente a palavra “equipas”. Até que ponto estas são fundamentais para o sucesso do projeto?

RC – Não há projeto de sucesso que não possa integrar as pessoas e as equipas. E esta tem sido a nossa preocupação fundamental. É, aliás, um dos nossos pontos de diferenciação. Quando instalamos a nossa loja numa determinada zona, queremos ter os consumidores como um vizinho, um amigo. Isso só é possível se as equipas estiverem próximas dos clientes, se forem capazes de manter essa relação de proximidade. A título de exemplo, posso dizer que há clientes de uma faixa etária mais idosa que, no seu aniversário, são convidados a ir às nossas lojas, onde oferecemos o bolo e cantamos os parabéns. Isto demonstra a proximidade que queremos ter. É esta a preocupação que temos com as equipas. Criar equipas que estejam próximas dos clientes, que percebam as suas necessidades, mas, mais que isso, que se tornem verdadeiros amigos e vizinhos de quem visita as nossas lojas.

 

GC – O projeto do co-work pode ser replicado na expansão futura da insígnia?

RC – Quando pensámos na loja da Avenida da República, tínhamos um espaço suplementar que quisemos aproveitar. Aquela é uma das zonas nobres da cidade, uma das avenidas mais importantes, com um tráfego pedonal imenso, pelo que entendemos que poderia ser o local indicado para fazermos um teste de um determinado tipo de serviços que queríamos proporcionar.

Este espaço de co-work tem-nos dado uma enorme visibilidade, tem sido muito falado por toda a comunidade, portanto, é uma aposta de sucesso e, quiçá, um dia, talvez a possamos replicar.

 

GC – Atendendo ao que existe no mercado, onde diferentes modelos de gestão coabitam, o grupo apostou, como tem sido habitual, num modelo de gestão direta. Conhecendo-se a índole do grupo, seria viável entrar neste negócio com outro modelo que não este, pelo menos nos primeiros tempos?

RC – Nestes espaços, os imóveis não nos pertencem, temos um contrato de arrendamento, mas na gestão do negócio entendemos que deveria ser um modelo direto, para podermos aprender. Se, amanhã, quisermos apresentar o projeto a outros operadores, temos já um modelo consolidado.

Independentemente de tudo isto, temos já um franchisado, na Póvoa de Santo Adrião, com a marca MyAuchan, onde temos vindo a fazer alguns testes. Eventualmente, iremos ter outros, mas, neste momento, queremos consolidar um projeto próprio na zona da Grande Lisboa. Mas não descuramos abrir ao modelo de franchising e os testes que temos vindo a fazer provam, efetivamente, que temos essa abertura.

 

GC – Qual seria o timing para essa mudança no modelo de gestão do negócio, tal como o conhecemos hoje? Ou a intenção do grupo é combinar ambos os modelos?

RC – Neste momento, a nossa preocupação é consolidar o modelo de negócio que temos. Possuímos 29 lojas, abrimos a 29.ª há muito pouco tempo, em Algés. Quando tivermos que apresentar este modelo aos nossos parceiros, tem de ser um modelo ganhador, um projeto win win para ambas as partes. A coabitação é perfeitamente possível e é isso que, estou em crer, no futuro iremos fazer.

 

GC – Quais são as mais-valias que o conceito oferece?

RC – A ultra proximidade é um projeto que, acima de tudo, tem de fazer parte integrante do bairro, daí a nossa preocupação na relação das nossas equipas com os vizinhos. É estar muito atento ao que são as necessidades das zonas onde estamos inseridos, daí que, em algumas, apostemos mais numa categoria de produto do que noutras.

Fundamentalmente, o que queremos oferecer aos clientes é a qualidade dos nossos produtos, nomeadamente dos frescos, o conforto e acolhimento dos nossos espaços, a aposta em mercados emergentes, como os produtos biológicos e dietéticos, porque temos, também, que tomar em consideração que temos uma população idosa mas, em determinados bairros, uma população mais jovem que tem outros hábitos de consumo a que temos de responder.

 O posicionamento de preço também faz parte do ADN do grupo e não é pelo facto de sermos uma loja de ultra proximidade que iremos descurar este aspeto.

Não nos podemos esquecer do digital. Independentemente das oito mil referências físicas que disponibilizamos nas nossas lojas, também damos acesso a todos os clientes, através do nosso site, a toda a gama Jumbo.

E volto a reafirmar as pessoas. Não há projeto desta natureza onde o fator humano não seja preponderante. A ultra proximidade é o conjunto de todas estas coisas, mas, fundamentalmente, é integrar-nos na vida de cada um dos bairros, termos e sermos um vizinho amigo.

 

Espaço cowork MyAuchan loja Avenida da República, Lisboa

 

GC – É cada vez mais caro viver em Lisboa. Até que ponto isto pode ter impacto nas vossas lojas, atendendo à localização da maior parte delas?

RC Essa é, essencialmente, uma preocupação que temos na procura de espaços. A localização é fundamental e o comércio sempre se pautou por “localização, localização, localização”.

É evidente que, quando queremos estar no centro de uma cidade como Lisboa, que tem vindo a ver os seus imóveis aumentar de preço de uma forma significativa, exige da nossa parte um trabalho muito mais aprofundado na procura das melhores localizações, na negociação junto dos promotores.

Contudo, não obstante o aumento significativo do valor imobiliário nas grandes cidades, e em Lisboa em particular, é aqui que queremos consolidar o nosso projeto. As visitas e a frequência de visita que estamos a ter nas nossas lojas são um testemunho de que fizemos a aposta correta.

 

GC – O crescimento do turismo tem também ajudado a este desempenho?

RC – Lisboa vive um momento importante em termos turísticos. O número de visitas praticamente dobra a população portuguesa, pelo que não é por acaso que apostámos em Lisboa, para usufruir dessa mais-valia que é o turismo e que muito bem se tem trabalhado. Nós, enquanto operadores comerciais, temos também que saber potenciar e beneficiar desse trabalho que tem vindo a ser feito pelo país.

 

GC – Quando será a altura certa para sair de Lisboa?

RC – A nossa aposta prioritária foi a área metropolitana de Lisboa. Temos já lojas nas zonas limítrofes, como Almada, Setúbal e Odivelas, mas temos de consolidar todo o nosso projeto e crescimento em Lisboa porque, a par da abertura das lojas, é necessário todo um trabalho logístico.

 Somos uma empresa que, durante muitos anos, trabalhou em hipermercados, estamos agora a adaptar às lojas mais pequenas. Só queremos sair de Lisboa quando o projeto e toda a cadeia de abastecimento estiverem consolidados. Assim, teremos razões suficientes para começar a expandir-nos para outros centros urbanos, nomeadamente o Porto.

 

GC – Qual o objetivo em termos de número de lojas para este ano?

RC – 29 lojas ao fim de dois anos deixam-me satisfeito. Em 2017, abrimos seis lojas, em 2018, foram 15. Mas é um processo por consolidação. Por vezes, temos de fazer um ‘stop & go’. Estamos a aprender. É um projeto novo para a empresa.

É evidente que queremos sempre mais lojas, mas, às vezes, o ótimo é inimigo do bom. O que queremos é abrir lojas com critério, em locais que consideremos importantes, naqueles locais que queremos e não naqueles que possam aparecer.

Este ano, já abrimos oito lojas. Temos um projeto para mais três ou quatro nos próximos tempos. Vamos continuar com a expansão. É uma aposta clara em termos do grupo, mas não temos um número identificado. O que queremos é abrir espaços que se revelem competentes, decisivos e cumpram a natureza do nosso projeto.

 

GC – Apesar do anúncio de um novo hipermercado em Paço d’Arcos, a grande aposta do grupo, este ano, continua a ser este canal?

RC – Claramente. A proximidade vai aumentar significativamente o parque de lojas. É a grande aposta de todas as cadeias de distribuição. A nossa não foge a essa regra. É o futuro. As pessoas procuram cada vez mais lojas deste tipo de formato, pelo que vamos continuar a apostar no mesmo.

 

GC – A conclusão da estratégia de marca única prevista para este ano irá, de algum modo, ajudar a consolidar a identidade desta insígnia com apenas dois anos de mercado?

RC – O facto de todas as lojas, independentemente do seu formato, terem uma só marca beneficia a todas. O reconhecimento vai ser muito maior da parte dos clientes, há sinergias entre os diversos formatos. Embora já haja muitos clientes que reconheçam a marca MyAuchan e a identifiquem com o grupo, a partir do momento em que todos operamos com a mesma marca, vai resultar num benefício claro para todos os formatos.

 

GC – O que seria um bom 2019 para o MyAuchan?

RC – Um bom exercício de 2019 seria continuarmos na senda do reconhecimento. É um projeto ainda jovem, que está a fazer o seu caminho, pelo que o que mais nos anima, na sua prossecução, é o reconhecimento dos consumidores, que queremos fortalecer. É isso que caracterizará um bom exercício em 2019, assim como em 2020 e assim sucessivamente.  Crescer com o reconhecimento dos nossos clientes e de uma forma consolidada e sustentada.  

Este artigo foi publicado na edição n.º 57 da Grande Consumo.

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