Para quê comprar se podemos partilhar?

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Um pouco por todo o mundo, uma nova de negócios baseados na colaboração e partilha entre pares está a agitar categorias estabelecidas. Seja através do empréstimo de bens, do aluguer de casas e automóveis, da oferta de serviço, os consumidores estão a mostrar um crescente entusiasmo pela chamada economia da partilha. Confiança, conveniência e um certo sentido de comunidade estão a catalisar a adoção deste modelo económico e, graças à vontade dos consumidores em usar mais apps móveis, existem cada vez menos barreiras à entrada de novos negócios e à construção das marcas.

Viajamos para a Bélgica, onde a Nestlé combinou partes da sua cadeia de abastecimento de produtos frescos e refrigerados com a PepsiCo. Partilharam o armazenamento, o embalamento e a distribuição, sincronizando as entregas de modo a aproveitar ao máximo o espaço dos camiões. O resultado? Uma redução de 44% nos custos de transporte, 55% nas emissões de carbono e níveis mais elevados de satisfação do consumidor.

Da Bélgica para a Índia e para o Paquistão. A iniciativa foi da Coca-Cola e permitiu a partilha do sentido de comunidade. Através da plataforma “Partilha uma Coca-Cola”, a gigante das bebidas quis transmitir a ideia de que a partilha e as ligações são o que nos torna humanos. Através de máquinas de vending “high tech”, convidava os indianos e paquistaneses a colocarem de lado as suas diferenças e a partilharem um momento. Em torno de uma Coca-Cola. Um dos momentos mais marcantes foi quando uma rapariga indiana deu as mãos a uma idosa paquistanesa. Ao mesmo tempo, a campanha encorajava a colaboração entre as equipas da Coca-Cola dos dois países, de modo a mostrar o poder e o valor das ligações na transposição de barreiras que parecem difíceis de ultrapassar.

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Regressemos a Portugal, onde os consumidores se renderam às autocaravanas. Mas isso não significa que as suas vendas tenham disparado. Conhecida como “Airbnb de autocaravanas”, a Yescapa já conquistou o mercado, tendo, nos primeiros cinco meses, gerado meio milhão de euros aos proprietários portugueses. Esta plataforma une proprietários de autocaravanas a pessoas que queiram ter umas férias diferentes, geralmente com maior contacto com a natureza e liberdade. Chegada a Portugal em julho do ano passado, a startup de origem francesa conta já com 250 proprietários registados em Portugal e com 3.500 utilizadores portugueses que recorrem mais de 740 vezes à plataforma, em busca de umas férias diferentes. Em 2018, houve mais de quatro mil pedidos de reservas para Portugal, número que a Yescapa pretende triplicar este ano.

Não há muito tempo que comprar uma casa e ter um automóvel eram sinónimo de se estar bem na vida. Mas esta noção alterou com a onda de disrupção tecnológica que o mundo atravessou e continua a atravessar. Hoje, impera a ideia de que menos é mais, o que tem desbravado caminho para o aparecimento de negócios colaborativos, não mais assentes na questão da posse, mas na de utilização. E assim surgiu o conceito de “sharing economy” ou economia da partilha.

O conceito assenta num sistema onde os ativos ou serviços são partilhados pelos consumidores finais ou pelos negócios, de uma forma gratuita ou em troca de um pagamento. Não se trata de nada de novo, mas a tecnologia veio facilitar a acessibilidade e a conveniência desta partilha, para a qual as novas gerações têm dado um grande contributo. Munidos de novos sistemas de valores, os consumidores mais jovens dão prioridade, acima de tudo, à eficiência e à experiência. A crise económica apenas veio catalisar estas novas prioridades. Não há qualquer problema em partilhar, por exemplo, as contas de Netflix ou Spotify.

Um estudo da McKinsey estima que mais de 150 milhões de pessoas nos Estados Unidos e na Europa participem em alguma espécie de plataforma colaborativa. Mas existe ainda mais margem de crescimento, à medida que a “sharing economy” ganha ímpeto em mercados como o da Ásia, África e América Latina. Ao ponto da PwC estimar que atinja, a nível global, os 335 mil milhões de dólares, em 2025, principalmente devido ao crescimento naquelas geografias.

Dividida em cinco principais sectores – transportes, finanças, bens de consumo, propriedade, serviços pessoais e serviços profissionais – a economia da partilha tem vingado devido à sua flexibilidade e independência. Um dos aspetos mais apreciados pelos consumidores quando recorrem a este tipo de serviços é que não se tem de possuir o que se está a utilizar. É por esta razão que serviços como os da Uber, Glovo ou carsharing e os espaços de cowork se estão a tornar tão populares.

Além disso, uma economia partilhada permite aos consumidores ganharem dinheiro através do aluguer de ativos pouco utilizados, o que justifica o crescimento de plataformas como o Airbnb. De acordo com um estudo da Deloitte sobre os efeitos económicos deste, os consumidores poupam em média 88 dólares por noite por ficarem nestas acomodações, ao que acrescem os ganhos para o proprietário e também os postos de trabalho criados para alimentar toda esta engrenagem.

Potencial e paradoxos

Autoridade mundial em matéria de economia partilhada, April Rinne, do World Economic Forum, esteve recentemente em Portugal a falar sobre o tema na conferência anual da Porto Business School. A especialista defende que o crescimento explosivo deste conceito surpreendeu até os mais atentos e basta recuar 10 anos para se ter uma noção do quanto. Em 2009, existia apenas uma mão cheia de plataformas, incluindo a Zipcar, a BlaBlaCar e a Couchsurfing. O Airbnb tinha sido lançado no outono do ano anterior e a Uber só apareceu nessa primavera de 2009. Hoje, são milhares, por esse mundo fora.

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Este ano, vai-se assistir às primeiras IPO da “sharing economy”. Tanto a Uber como a Lyft deverão passar a ser cotadas na bolsa de valores, ainda no primeiro semestre. A Uber está avaliada em 120 mil milhões de dólares e a Lyft em 15 mil milhões de dólares. Mas a especialista alerta que 2019 poderá também dar lugar às primeiras falências em larga escala. Especialmente na China, algumas “estrelas” da economia da partilha estão em dificuldades. O unicórnio da partilha de bicicletas Ofo está à beira da falência, não obstante o governo chinês ambicionar que este tipo de negócios represente, já no próximo ano, 10% do PIB.

A grande maioria das atividades na economia partilhada concentrou-se no sector privado, mas existem oportunidades também para os sectores público e social. Quando colocado em prática corretamente, o modelo cobre um leque amplo de problemas sociais, incluindo o isolamento, e cria capital humano, uma vez que as conexões dentro de uma comunidade ajudam a aumentar a resiliência e trazem as pessoas de volta às relações pessoais. Vejam-se os casos de Vancouver, Bogotá, Seul e Amesterdão, que são já exemplos de referência em matéria de “Cidades Partilhadas”.

Porém, ao mesmo tempo, a “sharing economy” tem vindo a perder alguma da sua mística inicial. “No início, não era raro ter-se uma conversa sobre como a economia partilhada poderia, de uma forma responsável, mitigar os efeitos do hiper consumo e construir o sentido de comunidade. Estes benefícios não desapareceram, mas é cada vez mais difícil encontrar plataformas que realmente os pratiquem. O foco desviou-se para a conveniência, preço e eficiência transacional: a ‘comunidade’ como uma ‘commodity’”, afirma April Rinne.

Uma pesquisa da Nielsen indica que 68% dos consumidores inquiridos, a nível global, estarão dispostos a partilhar ou alugar artigos que possuem. A PwC identificou cinco principais sectores com alto potencial de crescimento, incluindo viagens, automóveis, finanças e streaming. Dentro de sete anos, a economia da partilha pode multiplicar as receitas por 20, atingindo os 83 mil milhões de euros, em toda a Europa. Os dados são de um estudo do BPI Research, com base nas estimativas da PwC para a Comissão Europeia.

Para Portugal, os dados mais recentes, publicados pela Comissão Europeia em junho do ano passado, datam de 2016, mas, já nesse ano, o mercado da economia partilhada valia 265 milhões de euros e dava emprego a 8.400 pessoas. A contribuição para o PIB era de 0,14% e representava 0,17% do total do emprego. Já então, o alojamento era o sector mais importante, com quase cinco mil trabalhadores e uma receita a rondar os 121 milhões de euros, e em segundo lugar surgia o transporte, com 2.161 trabalhadores e uma receita a rondar os 40 milhões de euros.

Dos transportes aos brinquedos

É neste sector que atua a SHARENOW. Resultado da fusão da DriveNow com a car2go, é a maior empresa de carsharing do mundo a operar em “free flow”, ou seja, onde os clientes podem iniciar e concluir as suas viagens dentro de uma determinada área urbana e não em parques definidos. Nascido há 60 anos na Bélgica, o conceito de carsharing foi desenvolvido, sobretudo, nos Estados Unidos da América, a partir do ano 2000, com o objetivo de reduzir o número de automóveis nas cidades e potenciar a sua utilização por várias pessoas. Hoje, praticamente todos os grandes fabricantes de automóveis têm serviços de carsharing, de forma direta ou em parceria.

Coincidente com o crescente entusiasmo dos portugueses por estas soluções, a DriveNow, hoje SHARENOW, chegou a Portugal em 2017, numa parceria com a Brisa. Neste período, atingiu os 35 mil clientes ativos, ultrapassando a meta que tinha definido para o primeiro ano de atividade. “Estamos bastante satisfeitos com o desenvolvimento destes primeiros 17 meses, principalmente quando nos comparamos com as últimas cidades europeias onde o serviço foi lançado”, afirma João Oliveira, diretor geral da SHARENOW em Portugal. O objetivo é atingir o “break-even” em três anos.

Cobrindo já a grande maioria da cidade de Lisboa, e com um ponto no Lagoas Park, a SHARENOW tem vindo a afirmar-se pela sua oferta automóvel, com mais de 200 BMW e Mini espalhados por Lisboa (importa não esquecer que se trata de uma oferta de mobilidade conjunta dos grupos BMW e Daimler), e pela fiabilidade do serviço. Parquímetro, combustível e seguro estão incluídos e a parceria com a Brisa garante que os automóveis estão equipados com identificadores Via Verde. Tudo funciona através da app, de download gratuito. Basta a carta de condução e um método de pagamento válido para efetuar o registo. A app é utilizada para localizar, reservar e abrir e fechar as viaturas. Basta escolher o modelo favorito, localizar a viatura mais próxima, fazer a reserva, ligar o motor através do botão start/stop (não necessita de chave) e conduzir. Com um preço de 29 cêntimos por minuto, as viaturas podem ser reservadas durante os primeiros 15 sem custos.

Apostada em ser uma referência no carsharing e serviços de partilha em Lisboa, o objetivo da SHARENOW é ajudar a reduzir o número de segundas viaturas nas famílias, mas, segundo João Oliveira, há ainda um caminho a percorrer até o carsharing ser primeira opção de uma parte da população para as suas deslocações urbanas com viatura. “A economia de partilha resulta de uma maior racionalidade económica e dos constrangimentos ambientais, legais e de espaço. O mundo ocidental dá os primeiros passos com maior influência da racionalidade, mas na China temos bons exemplos de uma evolução mais forte pelos constrangimentos. Estes aproximam-se também no mundo ocidental, mas numa escala diferente. Em Portugal, vamos dando os primeiros passos a um ritmo lento, pois estamos demasiado dependentes da viatura própria”, analisa.

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A recente crise dos combustíveis em Portugal salientou a necessidade de se criar um novo paradigma face à mobilidade. Conceitos como o da SHARENOW vêm facilitar esse novo paradigma relativo à mobilidade urbana e à sustentabilidade, que no futuro evoluirão, no entender de João Oliveira, para as viaturas autónomas. “Já estamos mundialmente num novo percurso. Os veículos elétricos já são uma realidade e, nos próximos anos, a sua presença vai ganhar escala”, defende João Oliveira.

Esta nova economia da partilha está muito centrada na mobilidade e habitação temporária, duas áreas onde há muito potencial de desenvolvimento, mas outras aparecerão. “Se pensarmos, por exemplo, no consumo de carne, a economia da partilha já existe há muito tempo. Uma vaca num talho ou supermercado é muito mais acessível e rentabilizada do que antes destes canais existirem”, nota o diretor geral da SHARENOW.

Em termos globais, já existem plataformas para facilitar a economia da partilha para as coisas mais básicas do quotidiano. Em muitas cidades, já se vê as cadeias de artigos para a casa e bricolage, sobretudo as maiores, a disponibilizar a opção de alugar ferramentas, retirando a necessidade de comprá-las. Esta opção está também disponível em Portugal através de operadores como o Leroy Merlin, por exemplo, que, para além de ter criado áreas dedicadas nas suas lojas, que qualquer um pode usar para os seus projetos de bricolage, disponibiliza também o serviço de aluguer.

Das ferramentas ao mobiliário vai um passo, com o serviço que a IKEA pretende testar em 30 mercados, incluindo o nacional. Já a partir de 2020, será possível alugar mobiliário através de um modelo de assinatura, que permite à multinacional sueca manter a propriedade do produto, para garantir a reutilização, tantas vezes quanto possível, antes da reciclagem de materiais e componentes no final da vida útil. A marca encontra neste serviço uma forma de reformular o modelo de negócio, no sentido de se tornar mais acessível, conveniente e sustentável. Como afirma Jesper Brodin, CEO do Grupo Ingka, “as alterações climáticas e o consumo insustentável estão entre os maiores desafios que enfrentamos na sociedade. O desenvolvimento de negócios como este mostra como estamos focados em concretizar a nossa visão de criar uma vida melhor para a maioria das pessoas”.

No estudo sobre o desenvolvimento económico da economia colaborativa na União Europeia, Bruxelas admite que Portugal “demonstra um potencial de crescimento promissor“. O argumento da poupança proporcionado pelos conceitos de economia colaborativa é, por si só, relevante para os consumidores nacionais, particularmente sensíveis a esta questão, mas não tem sido o único motor de crescimento deste tipo de negócios. “Quando lançámos o conceito, acreditávamos no benefício da poupança, mas rapidamente verificámos que este não era o argumento mais valorizado”, confirma Ana Plácido, sócia gerente do Club do Brinquedo. “O tipo de cliente que recorre ao Club do Brinquedo é sensível às preocupações com o meio ambiente e tem noções claras dos benefícios do consumo partilhado como base de educação dos filhos. O que está em causa é mais uma mudança de mentalidade do que propriamente a poupança financeira”.

“Porquê comprar se pode alugar?”, é este o “claim” deste negócio, fundado em 2012 por uma mãe e uma irmã mais velha. Cansadas de comprar e amontoar brinquedos caros e com uma vida útil curta, procuraram novas soluções para este problema que, para além de dispendioso, vai contra os princípios de consumo sustentável. Alugar brinquedos para bebés, que “crescem” com a criança, alugar insufláveis e artigos para festas de aniversário ou, simplesmente, alugar um brinquedo diferente era uma ideia com sucesso comprovado em vários países e que tem vindo também a afirmar-se em Portugal.

O negócio, que está hoje nas mãos de Ana Plácido, pretende ser uma solução para que todos os pais possam proporcionar a diversão que os filhos merecem, durante todo o ano ou na festa de aniversário, mesmo em situações de menor disponibilidade financeira. É também uma alternativa ao consumo desenfreado, ajudando a fomentar atitudes mais responsáveis e solidárias, com toda a comodidade e respeito pelo meio ambiente.

O Club do Brinquedo tem crescido todos os anos e conta já com três mil utilizadores ativos. “As pessoas estão cada vez mais sensíveis a estes temas, mas, como qualquer ideia disruptiva, leva o seu tempo a ser aceite”, nota Ana Plácido. “Há ainda a tendência em comprar brinquedos para o dia-a-dia, em vez de alugar. Em contrapartida, o aluguer para datas especiais está completamente implementado e é atualmente o nosso principal eixo de negócio”.

O serviço assenta num site onde é possível escolher os brinquedos, confirmar se estão disponíveis e reservá-los. A oferta de brinquedos e serviços para datas especiais, seja um insuflável para uma festa de anos, um serviço de entretenimento infantil para um casamento ou uma tarde especial de troca de brinquedos numa escola, são as opções mais valorizadas pelos utilizadores do Club do Brinquedo. “Um dos serviços que mais valorizam é a troca de brinquedos que fazemos em eventos especiais. As crianças trazem os seus brinquedos antigos e podem trocar por outros que já foram trazidos por outras crianças, renovando os brinquedos e reciclando os que já não utilizavam. Tanto pais como crianças aderem muito bem e valorizam este serviço”, nota Ana Plácido.

A economia da partilha está, assim, a mudar a forma de se fazer negócios, à medida que cada vez mais pessoas se desfazem da ideia de que têm de ser donas de tudo. “Olhando para o futuro, e com uma lente de grande angular, não podemos dizer que a partilha vai aniquilar a propriedade. Será um mundo cada vez mais híbrido”, acredita April Rinne.

Certo é que muitas empresas de sucesso, no futuro, serão baseadas na ideia de partilha, acesso e colaboração. “Os negócios existentes terão, assim, de ser adaptáveis para permanecer relevantes e necessitarão de continuar focados em fornecer experiências autênticas e personalizadas aos consumidores”, conclui.

Se a economia da partilha provou algo, é que nenhum modelo de negócio pode ser tomado como garantido. Os negócios disruptores de hoje podem eles próprios enfrentar a disrupção amanhã.

Este artigo foi publicado na edição n.º 56 da Grande Consumo.

“Se não conseguirem envolver e entusiasmar o consumidor, vencerá sempre o preço mais baixo”

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