Mercadona: líder também na logística

É em Ciempozuelos, a 30 minutos de Madrid, que se encontra aquela que é a referência da Mercadona em termos logísticos. Centenas de caixas estão em constante movimento sobre tapetes rolantes. Paletes com chips integrados, leitores, elevadores, despaletizadores, embaladoras, enfim, um sem número de maquinaria e a mais avançada tecnologia são utilizadas com um único propósito: “o trabalho que possa ser feito por uma máquina que não o tenha de fazer o homem”. Apelidado de “Armazém do século XXI, trata-se de uma das plataformas de distribuição mais modernas do mundo e mais uma demonstração, também ao nível logístico, do porquê da Mercadona ser líder incontestável em Espanha.

O “segredo” está na automatização total dos processos, o que permite que as máquinas sejam capazes de despaletizar os envios dos fabricantes e organizar as encomendas das lojas em paletes multirreferência sem a necessidade dos colaboradores terem de fazer cargas penosas. A organização da palete reduziu de 45 a 12 minutos, numa aposta da Mercadona na “dignificação do trabalho”.

De facto, a decisão para a construção desta moderna plataforma logística, cujo projeto nasceu como um armazém tradicional, resultou de um pedido muito especial. Um dia, um colaborador de uma das plataformas logísticas da Mercadona decidiu partilhar com os seus superiores algo que o vinha a inquietar. Dada a natureza muito física do trabalho, dificilmente poderia vir a acabar os seus dias no ativo na empresa onde sempre tinha laborado. O diretor de logística escutou-o e expôs o caso à administração. O resultado está à vista, um investimento de 300 milhões de euros, uma inversão total ao que estava inicialmente previsto para esta plataforma projetada para abastecer todos os supermercados da cadeia localizados na zona centro e a criação daquela que é, ainda hoje, a referência da Mercadona em termos logísticos.

Visível desde a autoestrada A-4, o centro de distribuição de Ciempozuelos espalha-se por uma parcela de 200 mil metros quadrados, dos quais, cerca de 100 mil metros quadrados são edificados, repartidos por quatro armazéns dedicados aos produtos secos, ao frio, às embalagens e aos serviços, rodeados por zonas de estacionamento e cais de carga. Organizados na vertical, estes edifícios têm mais de 20 metros de altura. Em todas as secções o processo é automatizado, à exceção da dedicada ao peixe, dada a natureza delicada do produto em questão.

Graças a esta mudança de processos, é possível receber, todos os dias, cerca de 13 mil paletes e expedir outras 12 mil, sem esforços penosos para os trabalhadores (nos chamados picos de vendas, como as alturas da Páscoa e do Natal, podem entrar na no armazém cerca de nove mil embalagens).

Não é por isso de estranhar que em Ciempozuelos haja uma maior percentagem de emprego feminino (15%) face a outras plataformas logísticas ditas convencionais (5%). Além disso, também não significa menor criação de emprego, dado o elevado nível de automatização, mas, sim, a criação de emprego mais especializado, com mais funcionários encarregues de funções de limpeza e manutenção, para que nada falhe nesta bem oleada engrenagem.

Na nave de frio, por exemplo, há três temperaturas distintas. Dado o elevado grau de tecnologia integrado nesta plataforma, é possível haver presença humana mesmo nas zonas que estão a 3ºC e -12ºC. Já na que está a -23ºC, o processo é completamente automático.

É devido a esta automatização de processos que este bloco logístico, que também dispõe de uma creche para os filhos dos colaboradores, permite abastecer 272 lojas num prazo de 15 a 24 horas desde que é recebida a encomenda. A pleno rendimento, o número de lojas pode chegar às 400.

Como um jogo de Tetris

Tudo se desenrola como se de um jogo de Tetris se tratasse, onde as peças encaixam na perfeição umas nas outras. Tudo começa na zona de descargas, onde os trabalhadores retiram, com a ajuda de empilhadores, as paletes dos camiões, que depositam sobre uma máquina que lê os códigos de barras colocados na lateral. A informação é transmitida ao chip da palete escrava, assim chamada porque nunca sai do complexo, colocada por baixo da palete do produto. As paletes que não necessitarem de manipulação são colocadas nas estantes de mais de 20 metros de altura, através dos elevadores existentes, a uma velocidade entre oito e 12 metros por segundo. Em nome da eficiência dos processos, cada trajeto é aproveitado para colocar e retirar mercadoria.

Caso a palete necessite de manipulação, para que os produtos sejam distribuídos por várias lojas, entram em ação as máquinas despaletizadoras. A tecnologia aqui empregue foi criada especialmente para a Mercadona e demorou algum tempo a afinar. As máquinas, após lerem os códigos de barras, aplicam a força de absorção necessária para lidar com aquele produto em questão, seja este mais ou menos pesado. De seguida, o processo é similar, com os elevadores a subirem as paletes e a armazenarem os produtos tendo em consideração aspetos que vão desde o seu peso à data de validade.

O sistema permite colocar em paletes, de uma forma perfeitamente organizada, as encomendas enviadas pelas lojas. O sistema analisa cada pedido e constrói a palete tendo em conta o peso e a dimensão de cada produto. Como num jogo de Tetris, estes são colocados em cima das paletes de modo a aproveitar ao máximo o espaço disponível nos contentores. Não demora mais que 12 a 15 minutos, menos 30 do que na preparação manual, até que estas paletes multirreferência sejam cintadas por uma máquina embaladora e colocadas no cais de carga, no local previamente indicado.

O projeto levado a cabo nesta plataforma representa um novo conceito logístico, para o qual a Mercadona contou com a colaboração da Witron. O funcionamento do “Armazém do século XXI” baseia-se em módulos logísticos integrados da empresa alemã, que foram criados à medida das necessidades individuais da Mercadona. A fórmula emprega sistemas similares aos utilizados na norte-americana Kroger, razão pela qual a formação passou também pelos Estados Unidos da América, a par de Espanha e da Alemanha, num total de 160 mil horas, para criar algo que é único no sector da distribuição.

 

Liderança

Ciempozuelos é, para a Mercadona, mais uma ferramenta para atingir os seus objetivos empresariais. Ao otimizar o abastecimento das lojas, a operação torna-se mais produtiva, eliminam-se os custos por metro quadrado, aumenta-se a rentabilidade. Em última instância, diferencia-se da concorrência.

Não é por acaso que a liderança da cadeia valenciana em Espanha, que é um dos mercados de retalho mais fragmentados da Europa Ocidental, é destacada. Com uma quota de mercado de 23%, equivale à soma das quotas dos quatro maiores operadores de retalho seguintes.

Quem pode, então, desafiar a Mercadona? Ninguém, responde a LZ Retailytics. A consultora caracteriza-a como uma máquina bem oleada e considera que será capaz de manter o seu ciclo de elevados volumes de compras, eficiência operacional e conquista de quota de mercado, com prejuízo para os outros operadores. As suas previsões apontam que a Mercadona cresça cerca de 3,9% ao ano, nos próximos cinco anos, acima da média do mercado. “A Mercadona não só será capaz de continuar focada dos preços, como está disposta a sacrificar a sua rentabilidade para implementar um massivo plano de investimento, no valor de 1,5 mil milhões de euros, em 2018”, diz a análise. “Este plano contempla a remodelação de lojas, uma melhor proposta de frescos e um sério compromisso com o comércio eletrónico. Definitivamente, o frenesim de gasto de capital por parte da Mercadona parece ecoar as ambições de outrora dos operadores de discount Lidl e Aldi para o mercado espanhol. Por mais que estes queiram, com apenas 4,3% e 1,4% de quota de mercado, respetivamente, em 2018, nenhum representa atualmente uma ameaça genuína para a líder”.

E a grande questão é que a Mercadona ainda tem espaço para crescer em Espanha, embora a sua eminente expansão para Portugal parece sugerir que está a antecipar-se ao estreitamento do mercado espanhol. “Quando este se tornar demasiado exíguo, há questões que carecem de resposta. Por exemplo, irá a Mercadona caminhar no sentido de uma ‘premiumização’ do sortido e ‘nadar nas mesmas águas’ que os discounters? Ou, talvez, introduzir um novo formato que lhe permita expandir-se para zonas menos populosas e que são hoje dominadas pelos operadores regionais? Em qualquer caso, se a Mercadona atingir o limite, dificilmente será boas notícias para a concorrência”, conclui a análise.

Este artigo foi publicado na edição n.º 52 da Grande Consumo.

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