Juntos vamos mais longe

Sou um defensor do trabalho coletivo. Sempre o fui. Pode haver, como os há, protagonistas que desequilibram a balança, mas sem o suporte coletivo, a sua preponderância é sempre de curto impacto face ao potencial que lhes é reconhecido. A esse mesmo propósito diz a sabedoria popular africana que “sozinhos vamos mais rápido. Juntos vamos mais longe”.

Chavões à parte, quando as transformações individuais e coletivas se sucedem a um ritmo vertiginoso, não deixa de ser curioso que, quanto mais as tecnologias de informação potenciam o individualismo e, consigo, a alienação que tais possibilidades acarretam, é a palavra “equipas” que volta a soar com maior intensidade na narrativa dos líderes empresariais. Desde a administradores a diretores, quanto mais se afirma o “eu”, mais o “nós” ganha força e é, não raras vezes, acionado como recurso estilístico e não só. Seja para comunicar para fora ou para dentro das instituições que servem, na era do “eu sou fonte”, “eu sou ‘selfie’ no Instagram”, ou a mundialmente conhecida “eu estou aqui”, o trabalho coletivo volta a ser apontado como uma alavanca decisiva no competitivo mundo dos negócios.

Foi assim numa rara entrevista concedida por Rui Serpa, VP & Country Manager da Coca-Cola European Partners Portugal, e assim foi com a chegada da Mercadona ao mercado nacional, onde, também ali, os 900 colaboradores que a empresa já emprega em Portugal tiveram direito à devida menção pelo seu contributo para a internacionalização da líder retalhista no país vizinho. Pelo mesmo diapasão alinharam, sem saberem, André Semedo, o novo Head of Market da RB Healthcare, e Rui de Carvalho, quadro Auchan com percurso feito, e reconhecido, dentro da companhia, que na altura de fazer o balanço sobre os dois anos do MyAuchan destacou, claro está, o “trabalho extraordinário, de uma equipa multifacetada, que envolveu operacionais, comerciais, equipas técnicas, jurídicas e de desenvolvimento, num elevado espírito de cooperação e colaboração que muito nos tem orgulhado”.

Equipa, coletivo, a soma das partes, respetiva valências e capacidades, que voltam a ganhar maior protagonismo quanto maiores são os utensílios de produtividade e com eles os desafios que se nos colocam individual e coletivamente. Mas a grande questão que se põe é o que levou a esta mudança de paradigma? Estaremos perante uma nova forma de encarar a realidade? Ou é a própria realidade que conduziu a essa mesma leitura?

Provavelmente, será um ciclo como em tantas outras coisas, mas certo é que os desafios futuros que se colocam ao retalho em Portugal e, com eles, consequentemente, a toda a indústria de bens de grande consumo são, acredito, maiores do que no passado. Crescer, assegurar a sustentabilidade do negócio, entregar mais-valias aos acionistas são desafios constantes e cada vez mais difíceis de superar, ao que se junta, agora, os trazidos – ou as oportunidades – pelo entusiasmante mundo do código binário que nos permite, a todos, fazer mais, melhor e mais rápido, ao mesmo tempo que abre novas formas de negócio e consumo.

Não deixa, contudo, de ser curioso que, quanto mais possibilidades nos oferece a tecnologia, mais as ligações ao contexto em que nos inserimos se tornam evidentes e reforçam, uma vez mais, o trabalho das equipas que o desenvolvem localmente. Se em qualquer lado do mundo podemos beber e comer produtos que são praticamente iguais, não deixa de me captar a atenção a necessidade de haver âncoras locais em tornos dos projetos. Desde a produção ao retalho, muitos são os factos que nos levam a essa interpretação e, não obstante a utilidade das máquinas e o seu incontornável recurso para a produtiva humana, ainda são as pessoas, as marcas e os projetos que nos cativam. E os mesmos não (nunca?) serão passíveis de existir sem a responsabilidade que somente as pessoas podem assumir. Afinal, não há operador que as programe para serem como são. Será esta a magia do atuar localmente?

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