Eça de Queirós, o mandarim e a Covid-19

Eça de Queirós, o mandarim e a Covid-19

Nunca Eça de Queirós pensou que o famoso mandarim da sua obra homóloga pudesse, um dia, estar tanto nas bocas do mundo. Verdade é que Bill Gates já antevira que seria uma pandemia a matar mais pessoas, por esse mundo fora, do que propriamente as armas nucleares com que os países mais ricos, alguns também dos com mais dificuldades perante a ameaça invisível da Covid-19, se armaram até aos dentes para uma eventual agressão que chegou sobre outra forma menos tangível.

Tal como a Alemanha, noutro muito fatídico contexto, também esta estirpe viral apanhou o mundo, literalmente, de costas, entre a bazófia dos ricos, a preocupação dos pobres e o desespero de muitos (demasiados). Refém da fraca formação humana, intelectual e social dalguns dos principais líderes mundiais, 2020 arrancou em falso com uma “bomba” bacteriológica que nunca ninguém pensou atingir as proporções que atualmente tem. Eu, seguramente.

E o que diria Eça de Queirós se hoje fosse vivo? Categoricamente, muito. Ou, pelo menos, o suficiente para preencher diversas e prolíferas páginas que, provavelmente, redundariam em tantas outras fascinantes obras, não menos deliciosas de ler. E reler, muitas vezes. O seu sentido crítico, inteligência acima da média e traços de personalidade que deixava escorregar para a sua hábil escrita seriam muito úteis ao mundo cada vez mais ignorante e nivelado por baixo em que nos encontramos, presentemente, a viver. Onde se culpa os chineses desde Washington, mas se nega o óbvio porque, afinal, as eleições estão aí à porta e nunca se sabe o amanhã, se é que alguma vez se soube como se chegou ao “presente”. Entre a repressão do silêncio posta em prática por Pequim, a gripe chinesa, como tantos dizem, chama-se, essencialmente, imprevisibilidade. Caixa de Pandora aberta cujo impacto efetivo, consequência reais e possíveis rumos são ainda desconhecidos, sendo certo aquilo que Bill Gates (como seria bom ouvi-lo dialogar com Eça de Queirós, se tal fosse possível) quase messianicamente anteviu: afinal, foram mesmos os “micróbios” a gerar um genocídio ainda não concluído.

Num mundo da tecnologia, que nos proporciona conforto e qualidade de vida, foi o lado mais biológico, a vida, que pereceu perante a o que nunca julgámos ser possível. Nunca pensei assistir ao que vivemos nestes últimos dois meses.

Do susto à reação foram apenas alguns momentos, com uma onda solidária alguma vez nunca vista em Portugal, e que documentámos ao longo desse mesmo período em muitas, e boas, notícias, a demonstrar que, efetivamente, vivemos tempos excecionais. Onde o homem voltou a ser humano e onde foi percetível que a prosperidade de nada vale quando pode faltar a saúde.

Quisemos ser Eça de Queirós e “espreitar”, aqui e ali, como se passou da perplexidade à reação, ouvimos pessoas e recebemos testemunhos. Vimos negócios prosperar e outros não tanto, fábricas fechar, trabalhadores em lay-off e rumámos às nossas casas para nos protegermos e estar perto das nossas famílias. Fizemos uma inversão completa dos conteúdos que tínhamos previsto para a edição que agora vos proporcionamos. Partimos do zero e com menos tempo, procurámos ser atuais na nossa plataforma digital, unimos esforços e muito mais haveria para dizer. De tudo aquilo que, em regime de exceção, vivemos, sentimos, receámos, ambicionámos. Tempos excecionais que nos fizeram dar mais de nós e onde – não raras exceções, felizmente -, o melhor de cada um veio ao de cima. Nesse sentido, escrever este editorial tornou-se fácil, sem não poder esquecer a equipa que tornou possível mais uma edição, em papel e digital, no meio de um novo normal que de rotineiro teve muito pouco ou nada.

Quando tanto se fala da digitalização do negócio e são muitos, e bons, os exemplos, que colocaram na “berra” o e-commerce e o comércio de proximidade, são igualmente bons os que vêm dos grandes formatos, que de tudo fizeram para que o pânico da falta de alimentos não singrasse. O meu elogio ao contributo e agradecimento às muitas noites “quase” sem dormir de gerentes de loja, diretores de logística, repositores, operadores logísticos, motoristas, forças de segurança, toda uma imensa e complexa cadeia de valor que permitiu que, no desconhecimento, houvesse chão.

Por último, e seguramente não menos importante, convido-vos a ver, por intermédio da lente talentosa da nossa colega Sara Matos, algumas profissões, por vezes esquecidas, e que também estiveram na linha da frente. Aos anunciantes e parceiros de negócio, que permitiram que esta edição pudesse sair, o meu agradecimento público. Estes são tempos de exceção, mas há valores intrínsecos que serão, acredito, para sempre.

Boas leituras!

Eça de Queirós, o mandarim e a Covid-19
Bruno Farias
Diretor Grande Consumo

Valorizar a produção nacional, mais do que nunca

João Potier, diretor geral Arrozeiras Mundiarroz

Sustentabilidade presente e futura