A merceria da minha rua

A introdução progressiva da tecnologia, não necessariamente de forma discreta nas nossas vidas, tem levado, e vai continuar a levar, a mudanças mais ou menos imediatas no modo como nos relacionamos com os objetos que adquirimos. Uma verdadeira “revolução industrial” cujo término ninguém pode, com propriedade, afirmar como vai ser concluída.

Se os valores envolvidos no dinâmico mundo do retalho sempre se pautaram por muitos zeros à direita, os montantes que os operadores “pure players” vieram aportar a este negócio tornam-no verdadeiramente faraónico. Mas não necessariamente mais totalizador, já que é essa mesma tecnologia que permitiu a muitos pequenos negócios darem um ar de sua graça e chegarem, de forma direta, a muitos consumidores, geograficamente mais ou menos próximos de si, eliminando a intermediação de um distribuidor. Diferentes dimensões, ambições distintas, fitos comuns: vender a quem quer comprar e ganhar dinheiro. Realidades desenhadas quotidianamente através da “ditadura das máquinas” cujas capacidades não nos param de surpreender de tão elaborado que é o seu “raciocínio” e, sobretudo, capacidade preditiva, e decisiva, para muitas situações do negócio.

Comércio que, na China, apresenta ideias verdadeiramente disruptivas, inovadoras e que prometem elevar a parada para patamares nunca antes vistos. Se há uns anos atrás, a chegada ao mercado dos aparelhos de GPS gerou um enorme “boom” de vendas, hoje, a revolução chega com aquilo que já se tornou uma comodidade incontornável da nossa vida. Os “smartphones” são a peça dessa mesma mudança de comportamentos, hábitos e registos, servindo, entre outras muitas coisas, para abrir a porta das lojas Auchan Minute, na China, e, por seu intermédio, conduzir o “shopper” no mundo do consumo digital que ali se propicia. Um conceito de lojas sem operadores, onde o digital e a transformação tecnológica, na combinação das suas várias valências, conduzem o utilizador para uma experiência de compra, no mínimo, alternativa.

Mas, se nesta mesma edição da Grande Consumo damos a conhecer a vanguarda do retalho em termos de tendências à escala mundial, não menos verdade é que, por outro lado, é o apelo do tradicional e da conveniência que também continua a resgatar terreno perdido. Uma dicotomia difícil de explicar, em que, ao mesmo tempo em que nos alineamos com tudo o que conseguimos fazer com o toque de um botão, buscamos refúgio no sorriso de um estranho que nos entrega as compras (em saco de papel, claro!).

E o comércio de proximidade continua a querer crescer, ser atual e mais premente, sem perder a oportunidade de modernizar as suas lojas com a introdução de recursos tecnológicos, sejam eles de frente de loja ou de apoio à gestão, mas sempre com a âncora do que é a génese de todo o comércio: o convívio humano.

Queremos a eficácia das máquinas, a precisão dos algoritmos, mas ainda nos diz algo (creio) o sorriso e a confiança de quem nos serve. Nem que seja para, qual gesto simples, nos trazer as compras (compradas online) a casa ou uma refeição quente naqueles dias mais duros ou em que a preguiça é demasiada para ser vencida.

Não consigo deixar de ficar deslumbrado à medida que os “pure players” nos seduzem com a miríade de possibilidades que a sua proposta de valor pode aportar às nossas vidas, mas continuo a preferir ir escolher, por mim, a fruta que como ou ouvir o conselho de um vinho na mercearia da rua onde cresci. Uma como tantas outras por esse mundo fora, mas onde o facto de ser uma “cara conhecida” faz com que não me importe de pagar o custo da menor escala e independência.

Bruno Farias
Diretor Grande Consumo

O ano M

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