Chamam-lhe apocalipse do retalho e está apenas a começar

24 NOVEMBRO 2017
Chama-lhe Retail Apocalypse (apocalipse do retalho) para descrever a pior crise em décadas que o sector de retalho norte-americano está a enfrentar e que está apenas no seu início.

Ao surgimento da Amazon e às mudanças nos hábitos de consumo, soma-se a maturidade da dívida dde mais de 35.000 milhões de dólares (30.000 milhões de euros) que ameaça o sector nos próximos anos, no momento em que o refinanciamento será muito difícil devido ao aumento das taxas de juros.

Até o terceiro trimestre, mais de 6.800 lojas fecharam as portas nos Estados Unidos da América, mais do dobro do ano passado. A manter-se este ritmo, o número de encerramentos vai exceder o recorde de 2008. O comércio têxtil e a eletrónica de consumo estão a ser os sectores mais prejudicados, com 2.500 e 2.000 encerramentos anunciados, respetivamente. Mas também as department stores, como Macy's, Sears ou JC Penny, fecharam 550 lojas que equivalem a metade da área total detida pelas três empresas em 2016.

Tudo isso ocorre numa altura de crescimento sustentado da economia, com o desemprego historicamente baixo e com a confiança do consumidor no seu mais alto nível. No entanto, ao encerramento de lojas adiciona-se um número crescente de falências e de atrasos nos pagamentos, o que coloca em risco milhões de empregos e o pilar fundamental da economia norte-americana, o consumo.

Os media norte-americanos criaram o termo Retail Apocalypse para se referir a este fenómeno em que os problemas estruturais do sector surgiram em conjunto com um ambiente mais competitivo face à transformação digital do comércio eletrónico. Uma grande parte das cadeias de distribuição registaram um alto nível endividamento, depois de compradas, nos últimos anos, por fundos e de investimento e de capital de risco. Estas operações causaram o equilíbrio dos grupos que foram adquiridos para crescer desproporcionalmente. De acordo com a Bloomberg, este será um problema a médio prazo, mesmo para as cadeias mais saudáveis.

O problema afeta também as cadeias que permaneceram independentes, mas que  recorreram ao crédito barato para financiar os seus projetos de expansão. A bolha do crédito também se estende aos promotores de shopping centers. O número de centros comerciais duplicou o ritmo de crescimento da população entre os anos 1970 e 2015, de acordo com a instituição financeira Cowen. Mas, pela primeira vez no ano passado, houve uma queda na área comercial operacional para 700 milhões de metros quadrados, permitindo o encerramento de grandes superfícies. A Green Street  estima que existam 1.200 centros comerciais no país, que oferece um espaço de retalho per capita cinco vezes superior ao do Reino Unido ou oito vezes ao de Espanha.
 
O refinanciamento da dívida tem sido o pão do dia para a maioria das empresas do sector, com taxas próximas de zero. Os credores e os bancos quase não fizeram nenhum esforço para ampliar o prazo de vencimento da dívida.

A mudança da política monetária da Reserva Federal significou uma mudança radical nas regras do jogo para o retalho. Para as empresas de distribuição, é fácil endividarem-se, têm uma grande capacidade de gerar dinheiro e muitos ativos imobiliários que servem como garantia. 

De acordo com a agência de rating Fitch, o vencimento dos títulos de retalho aumentou este ano para 100 milhões de dólares, mas em 2018 aumentará para 1.800 milhões. E, então, o abismo chega. Entre 2019 e 2025, a média superará os 5.000 milhões de dólares por ano. Neste espaço temporário, espera-se um aumento progressivo das taxas de juro. Este valor não inclui a dívida de oito grupos de department stores (Kohl's, Macy's, Dillard, Nordstrom, Stage Stores, JC Pennys, Sears e Bon-Ton Stores), cujo passivo total equivale a 24 mil milhões de dólares.